Pequeno ensaio

            Não sei mais quem sou, se é que algum dia fui alguém. Aquilo que já vivi parece ter sido outra pessoa, lembranças de um estranho adormecido em meu coração. As memórias que carrego são como sombras distantes, ecoando em um vazio que não consigo preencher.

            Se algum dia cheguei a trilhar um caminho, perdi-me no emaranhado de cruzamentos e estradas percorridas ao longo dos anos. Caminhos que se desdobravam diante de mim como labirintos intrincados, repletos de escolhas e desvios. Tantos longos anos que, ao mesmo tempo, parecem minutos, fragmentos de tempo estilhaçados ao chão, como peças de um quebra-cabeça interminável, do qual já não tenho mais esperança de decifrar.

            As jornadas que percorri, as faces que encontrei, todas parecem pertencer a um sonho distante. Cada momento vivido, cada sorriso e lágrima, parecem desvanecer-se na névoa do tempo. Sinto-me como um viajante perdido, navegando por mares de incerteza, sem bússola ou estrela-guia.

            Os dias se sucedem, arrastando-se como um rio lento e inexorável, levando consigo as certezas e esperanças que outrora tive. Em meio a esse fluxo incessante, procuro vestígios de quem fui, pedaços de uma identidade que se esvaiu. E assim, sigo tentando encontrar sentido no caos, costurando lembranças e sentimentos em uma tapeçaria frágil e efêmera.

            Não sei mais quem sou, mas talvez a busca por essa resposta seja a própria essência de existir. Talvez, no entrelaçar de dúvidas e descobertas, resida a verdade que tanto procuro. E, enquanto essa jornada prossegue, continuo a trilhar caminhos incertos, com a esperança de um dia me reencontrar. 


                                                                                                                                     Texto originalmente escrito em 07/08/2023

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